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Arqueólogos encontram a evidência mais antiga de cremação na África, há 9.500 anos

Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 14:00

2 min de leitura

Há cerca de 9.500 anos, em um ponto hoje localizado no norte do Malawi, um grupo de caçadores-coletores realizou um ritual funerário que desafia o que se sabia sobre práticas mortuárias na África pré-histórica.

Uma mulher adulta foi cremada em uma pira funerária construída a céu aberto, isto é, uma grande fogueira construída especificamente para isso. O evento exigiu um trabalho coletivo intenso, controle prolongado do fogo e uma sequência de gestos cuidadosamente coordenados.

A descoberta, descrita em um estudo publicado na Science Advances, representa a evidência mais antiga de cremação intencional no continente africano e a mais antiga pira funerária conhecida contendo os restos de um adulto em qualquer lugar do mundo.

A cremação ocorreu no sítio arqueológico conhecido como Hora 1, localizado na base do Monte Hora, uma grande formação rochosa. Escavações realizadas no local desde a década de 1950 já haviam identificado ali um antigo cemitério de caçadores-coletores, mas a cronologia e a diversidade dos rituais ainda não eram plenamente compreendidas.

Pesquisas sistemáticas iniciadas em 2016, lideradas pela antropóloga Jessica Thompson, da Universidade de Yale, mostraram que o local foi ocupado pela primeira vez há cerca de 21 mil anos e usado para sepultamentos entre aproximadamente 16 mil e 8 mil anos atrás. Todos esses enterros envolviam corpos intactos, depositados no solo. A cremação descoberta agora, datada de cerca de 9.500 anos atrás, destoa completamente desse padrão.

A pira funerária foi construída sob uma saliência natural de pedra e formava uma camada de cinzas com dimensões semelhantes às de uma cama de casal.

Dentro dela, os pesquisadores encontraram cerca de 170 fragmentos de ossos humanos, principalmente de braços e pernas, todos altamente queimados e fraturados. A análise bioarqueológica indicou que pertenciam a uma mulher adulta, com idade estimada entre 18 e 60 anos e estatura pouco inferior a 1,5 metro.

Os ossos revelam que o corpo foi queimado pouco tempo após a morte, antes que a decomposição avançasse. Padrões de rachaduras, deformações e alterações de cor mostram que a cremação ocorreu com tecidos moles ainda presentes – como músculos, tendões e parte da pele –, e que o fogo atingiu temperaturas superiores a 500 °C.

Além do calor extremo, há evidências de manipulação direta do corpo durante o ritual. Microscópios revelaram pequenas marcas de corte nos ossos dos membros, feitas com ferramentas de pedra, sugerindo que a carne foi removida deliberadamente para facilitar a queima.

Fragmentos dessas mesmas ferramentas apareceram misturados às cinzas, indicando que objetos foram lançados ao fogo enquanto ele ardia, possivelmente como parte do ritual funerário.

Um dos aspectos mais intrigantes da descoberta é a ausência completa de ossos do crânio e de dentes. Em cremações, essas partes costumam se preservar bem por serem mais densas. "Acreditamos que a cabeça possa ter sido removida antes da cremação", afirmou Elizabeth Sawchuk, curadora de Evolução Humana do Museu de História Natural de Cleveland e bioarqueóloga envolvida no estudo, em comunicado.

Fonte: Superinteressante

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