Brasileiros enfrentam frio de até -60 ºC em missão científica na Antártida
Publicado em 16 de dezembro de 2025 às 19:58
3 min de leituraEm meio a um deserto de gelo, num dos lugares mais remotos do planeta, três pesquisadores brasileiros estão enfrentando temperaturas de -20º C, um Sol que não se põe nunca e sensação térmica de até -60º C como parte da missão Criosfera-1 2025/2026, uma expedição científica brasileira no coração da Antártica.
O objetivo é estudar fenômenos climáticos como o derretimento das calotas polares, que aumentam o nível do mar, e a dinâmica das massas de ar, que afetam o clima do mundo todo.
Essa é a primeira missão climática brasileira na Antártica do tipo "carbono neutro", ou seja, a primeira a compensar todas as emissões de gases de efeito estufa decorrentes de suas atividades.
"Afinal, nós estamos na Antártica, numa área super importante no contexto climático, e por isso a gente quis trazer essa coerência", explicaGabriel Estevam, diretor de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Ambipar e um dos participantes da expedição. Gabriel falou com a Super diretamente da base brasileira no continente gelado – a missão de 2025 é a primeira com acesso à internet em tempo real via satélite Starlink.
–Missão Criosfera/Arquivo Pessoal/Divulgação O engenheiro ambiental está acompanhado por Heitor Evangelista, geofísico da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do Criosfera 1, e por Heber Passos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O trio enfrentou uma verdadeira odisseia para chegar lá: foi necessário viajar em um navio da Marinha do Brasil até o Chile e depois pegar diversos voos em aviões adaptados para a neve, que precisam de condições meteorológicas para pousar. "O avião arremeteu oito vezes. Se a gente não conseguisse pousar na última tentativa, teríamos que abortar a missão", conta Gabriel.
–Missão Criosfera/Arquivo Pessoal/Divulgação O que é o Criosfera-1
A maior e mais importante estação de pesquisas brasileira na região é a Comandante Ferraz, localizada na ilha Rei George, ao norte do continente. O Criosfera-1, por sua vez, fica a 2.500 quilômetros dali, isolado no coração gelado da Antártica.
Trata-se de um módulo autônomo, cujos equipamentos funcionam sozinhos durante todo o ano, abrigados dentro de um contêiner vermelho que fica elevado do solo. Cientistas visitam o local periodicamente (no verão, por motivos óbvios) para fazer manutenções nos equipamentos e para instalar novas máquinas, além de coletar alguns dados que ficam salvos localmente e também amostras de gelo para análises laboratoriais.
–Missão Criosfera/Arquivo Pessoal/Divulgação A estação é equipada com equipamentos que monitoram diversos indicadores meteorológicos, como os níveis de CO₂, aerossóis, acúmulo de neve, radiações UV-A e UV-B e ozônio (o buraco da camada de ozônio, aliás, fica logo acima dessa região, e é graças a dados como os do Criosfera-1 que sabemos que ele está lentamente se fechando).
Outro dado monitorado por um aparelho da estação é o chamado "carbono negro": matéria orgânica que tem sua origem em incêndios que ocorrem bem longe da Antártica, como na Amazônia ou na Austrália, e é levada pelas correntes de ar para o coração do continente gelado. Por lá, essa fuligem contribui para um maior derretimento do gelo, como mostrou um estudo recente coordenado pelo professor Heitor Evangelista.
O Criosfera-1 foi inaugurado em 2012 no paralelo 84 da Antártica, a 600 quilômetros do Polo Sul, e faz parte do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). O módulo é coordenado e mantido por uma colaboração de diversas organizações: Uerj, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), USP, Inpe, Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).
Fonte: Superinteressante
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