Pular para o conteúdo
Tecnologia
com
borealização
rios
enferrujados
ártico
passa

Com “borealização” e “rios enferrujados”, Ártico passa pelo ano mais quente já registrado

Publicado em 18 de dezembro de 2025 às 10:00

3 min de leitura

O Ártico acaba de registrar seu ano mais quente desde 1900. Com temperaturas 1,6°C acima da média das últimas três décadas, a região polar norte segue sentindo os efeitos das mudanças climáticas desencadeadas pela queima de combustíveis fósseis. Desde 1979, o local tem esquentado em uma velocidade quase quatro vezes maior que o restante do planeta – fenômeno apelidado de amplificação do Ártico.

Foi também em 2025 que a região passou pelo seu primeiro outono, segundo inverno e terceiro verão mais quentes. Desse aquecimento emergem outros fenômenos alarmantes: derretimento de geleiras, rios "enferrujados", "borealização" dos biomas de tundra e "Atlantificação" do oceano Ártico.

As estimativas são do mais novo Arctic Report Card, que, desde 2006, publica relatórios anuais monitorando mudanças nos "Sinais Vitais do Ártico" – indicadores dos processos marinhos, terrestres e atmosféricos da região. "Observar o ártico é medir o pulso do planeta", afirmam os pesquisadores no documento.

O aumento das temperaturas tem tido uma série de efeitos nos ecossistemas locais. O mais expressivo, como o relatório aponta, é a intensificação do ciclo hidrológico – isto é, o ciclo da água, que abarca a evaporação e a precipitação, além do derretimento do gelo. O período entre outubro de 2024 e setembro de 2025 registrou níveis recordistas de precipitação.

Esse aumento na concentração de vapor de água na atmosfera – os chamados rios voadores – também retroalimenta o aquecimento, capturando o calor e impedindo que ele escape para o espaço.

A diminuição da camada de gelo que cobre o Ártico – uma superfície reflexiva que rebate a luz solar – também tem piorado o aquecimento na região. Em junho, essa camada de gelo reflexiva tinha apenas metade da extensão que costumava ter nos anos 1960, o que significa que menos luz estava sendo rebatida, e mais calor estava sendo absorvido pelo solo.

Uma consequência curiosa disso é que as tundras, biomas frios e sem árvores, tem verdejado – e isso não é algo bom. A "borealização", ou seja, o aparecimento de novas formas de vegetação, é um fenômeno observado desde os anos 1990, que traz consigo perturbações nos ecossistemas e na biodiversidade local. Por baixo das tundras, esse fenômeno também foi observado no fundo mar.

No mar, aliás, a situação não melhora. O oceano Ártico vem passando por um processo de "atlantificação", que o tem tornado mais quente e salgado. Esse fenômeno acontece quando as águas do Atlântico Norte atingem latitudes superiores, bagunçando as camadas do oceano Ártico – ou seja, "fatias" do mar que separam águas de diferentes densidades e temperaturas, e isolam o gelo marinho contra águas inferiores mais quentes.

Comparado aos 47 anos de registros de satélite que se tem do oceano Ártico, a superfície reflexiva de gelo marinho tem hoje sua menor extensão anual máxima, o que também tem contribuído para a permanência do calor na superfície da região.

O mais chocante, porém, provavelmente são os rios "enferrujados". Mais de 200 bacias hidrográficas árticas de águas antes límpidas agora refletem um vívido tom de laranja. Isso tem a ver com o degelo permafrost – uma camada congelada de solo, rocha, sedimento e areia que se estende por baixo de 15% do território hemisfério norte.

O derretimento dessa camada tem exposto minerais a diversas formas de corrosão, como a oxidação do ferro. A ferrugem resultante tem colorido as águas dos rios como o pó de um suco de saquinho ainda mais ácido e tóxico. Entram nessa sopa também metais como cobre, alumínio e zinco, que comprometem ainda mais a qualidade da água, afetando ecossistemas e comunidades locais que dependem desses rios.

Fonte: Superinteressante

Leia também