Gravuras de animais de 12 mil anos sinalizavam fontes de água no deserto árabe
Publicado em 3 de outubro de 2025 às 12:00
3 min de leituraUma equipe internacional de arqueólogos descobriu no norte da Arábia Saudita gravuras monumentais de cerca de 12 mil anos representandoem tamanho natural camelos, gazelas, íbex (um tipo de caprino), equídeos selvagens e auroques (um bovino extinto no século 17).
A pesquisa, publicada na semana passada na revista Nature Communications e conduzida pelo Projeto Arábia Verde, mostra que essas imagens não eram apenas expressão artística, mas também funcionavam como marcadores de fontes sazonais de água em uma região árida e desafiadora.
O estudo reuniu especialistas da Comissão do Patrimônio e do Ministério da Cultura da Arábia Saudita, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, da Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah (KAUST), da Universidade College London e do Centro Australiano de Pesquisa para Evolução Humana da Universidade Griffith, entre outras instituições.
Foram identificados mais de 60 painéis em três locais até então pouco explorados – Jebel Arnaan, Jebel Mleiha e Jebel Misma, no norte da Arábia Saudita – somando 176 gravuras. Dessas, 130 são representações naturalistas em tamanho real, algumas com quase três metros de comprimento e mais de dois de altura.
As esculturas foram datadas entre 12.800 e 11.400 anos atrás, período em que a região experimentou o retorno de chuvas ocasionais, depois do fim do Último Máximo Glacial – a fase mais fria da última era do gelo (cerca de 26 mil a 19 mil anos atrás), quando grande parte do planeta era árida e inóspita.
"Essas grandes gravuras não são apenas arte rupestre – elas provavelmente eram declarações de presença, acesso e identidade cultural", disse a arqueóloga Maria Guagnin, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, em comunicado. Já a coautora Ceri Shipton, da Universidade College London, destacou que "a arte rupestre marca fontes de água e rotas de movimento, possivelmente significando direitos territoriais e memória intergeracional".
Diferentemente de locais já conhecidos, onde as imagens estavam escondidas em fendas, os painéis encontrados no norte da Arábia foram talhados em penhascos altos, alguns com até 39 metros, em pontos de grande visibilidade. Em certos casos, os artistas precisaram escalar saliências estreitas para realizar as gravuras, o que indica tanto o esforço quanto a importância simbólica dessas representações.
Paineis de arte rupestre monumental no norte da Árabia Sauditano norte da Arábia Saudita no norte da Arábia Saudita . Na imagem C, a figura humana foi inserida graficamente para servir de escala.Guagnin, M., Shipton, C., Al-Jibreen, F. et al./Reprodução Além da arte rupestre, os arqueólogos encontraram ferramentas de pedra típicas do Levante – região que corresponde hoje a Palestina, Israel, Jordânia, Líbano e Síria –, utilizadas para entalhar a rocha dura dos penhascos. Os artistas raspavam e lascavam a superfície com ferramentas afiadas, criando contornos precisos e detalhes naturalistas, enquanto pigmentos e contas de concha marinha podem ter complementado a obra ou tido função simbólica.
Esses achados reforçam a hipótese de que os grupos humanos da região mantinham conexões de troca e contato cultural com comunidades distantes em até 400 quilômetros.
Ferramentas de gravação recuperadas em camadas sedimentares sob alguns painéis permitiram a datação por luminescência, confirmando a antiguidade aproximada de 12 mil anos e evidenciando as técnicas de entalhe utilizadas para criar as gravuras.
Fonte: Superinteressante
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