O enterro de milhares de cartuchos: A história completa da operação da Atari para esconder seu fracasso
Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 13:01
7 min de leituraEntre 25 e 28 de setembro de 1983, a Atari despejou 11 carretas de cartuchos no aterro de Alamogordo, Novo México, pagando apenas US$ 26 por caminhão, estimados entre 700 mil e 800 mil unidades no total. A cidade reagiu despejando aproximadamente 41 metros cúbicos de concreto sobre a carga descartada e banindo futuros descartes. Trinta e um anos depois, arqueólogos desenterraram 1.300 cartuchos, revelando que apenas 10% era E.T., desmentindo décadas da maior lenda urbana dos games. Neste artigo iremos explorar em detalhes essa história.
O contexto do colapso: 1983
Entre 25 e 28 de setembro de 1983, quando 11 carretas da Atari começaram a despejar toneladas de cartuchos, consoles e equipamentos no aterro sanitário de Alamogordo, a cidade entrou em choque. O gerente municipal Dan Malone admitiu que não sabia, até o sábado daquela semana, que a fábrica da Atari no Texas havia escolhido Alamogordo como depósito industrial. Autoridades municipais ficaram alarmadas com a "trincheira gigantesca" aberta no aterro, o comissário Gallaway descreveu: "É enorme".
Seguranças foram posicionados para manter repórteres e curiosos afastados enquanto trabalhadores derramavam concreto sobre a mercadoria. A operação, documentada pelo New York Times em sua edição de 28 de setembro daquele ano e pelo jornal local Alamogordo Daily News em 27 de setembro, tinha ares de sigilo corporativo. Executivos da Atari em El Paso se recusaram a confirmar relatórios da imprensa sobre o destino das mercadorias.
O motivo do sigilo era claro: a Atari havia reportado um prejuízo de US$ 310,5 milhões apenas no segundo trimestre de 1983, e a companhia estava pagando irrisórios US$ 26 por caminhão para a empresa BFI (Browning-Ferris Industries) descartar o inventário.
Um executivo da Atari identificado como "Penn" pelo jornal local foi brutalmente honesto: "Com os cartuchos que vendemos, é mais barato descartar do que processar os cartuchos de volta. Nós temos que descartar o material". Ele admitiu que parte do estoque poderia ser aproveitável no futuro, mas a maioria era "defeituoso, obsoleto ou não atendia aos padrões"
A cidade de Alamogordo reagiu com fúria. Em 28 de setembro de 1983, a comissão municipal despejou aproximadamente 41 metros cúbicos de concreto sobre o depósito da Atari e aprovou uma lei municipal banindo qualquer descarte futuro da empresa, essencialmente expulsando a Atari da cidade. A correspondente Kate McGraw, de Santa Fé, confirmou no artigo de 28 de setembro que "peças de computador e jogos de computador que foram despejados no aterro de Alamogordo não envolviam materiais perigosos, tanto quanto qualquer um sabia". O incidente foi tão traumático que a legislatura do Novo México criou a "Lei de Gerenciamento de Emergências", formando uma força-tarefa para desenvolver regulamentações sobre descartes questionáveis.
E.T.: O jogo que ficou com má fama
Desenvolvido em apenas cinco semanas pelo programador Howard Scott Warshaw — criador de sucessos como Yars’ Revenge (800 mil cópias vendidas) e Raiders of the Lost Ark (500 mil cópias) — E.T. foi vítima de um prazo impossível imposto pelo lançamento natalino de 1982. A Atari havia pagado US$ 22 milhões apenas pelos direitos de licenciamento para Steven Spielberg, condicionando o lançamento ao final de ano, se Warshaw perdesse o prazo de Natal, os US$ 22 milhões desapareceriam.
Diferente do que afirma a lenda, E.T. foi um sucesso comercial inicial. Duas semanas após o lançamento em dezembro de 1982, o jogo alcançou a 4ª posição no Top 15 de videogames da revista Billboard, ficando atrás apenas de Pitfall, Donkey Kong e Frogger. Paradoxalmente, das 5 milhões de cópias produzidas, 2 milhões foram vendidas, um sucesso relativo, mas entre 2,5 e 3,5 milhões foram devolvidas. Em termos de faturamento bruto, E.T. estava entre os dez jogos mais vendidos do Atari 2600.
As devoluções ocorreram porque os consumidores não compreendiam a mecânica: E.T. apresentava um mundo aberto em formato de cubo tridimensional que o jogador podia explorar continuamente — algo revolucionário para 1983. O jogo não tinha violência, sem combates diretos, focado em múltiplos objetivos sequenciais como coletar peças de telefone e encontrar Elliott. Para os padrões da época, isso era incompreensível: os jogadores estavam acostumados a atirar, acumular pontos e ganhar.
Warshaw admitiu que teria corrigido certos problemas técnicos, especialmente a imprecisão na detecção de colisão que fazia E.T. cair em buracos inesperadamente, se tivesse tido mais seis meses de desenvolvimento. Décadas depois, em 2000, o site Neocomputer lançou correções que consertaram os bugs, transformando E.T. em um jogo jogável e até inovador para sua era.
A lenda ganha escala global
Nas décadas seguintes ao enterro dos cartuchos, a história se transformou em uma das maiores lendas urbanas da história dos games, alcançando escala verdadeiramente global. Bruce Snyder, pesquisador do aterro de Alamogordo que visitou o local observou: "Se você procurar na Internet, há muito interesse internacional nisso — do Reino Unido, Japão e Europa". Snyder filmou o antigo aterro e postou fotos online, alimentando a curiosidade de milhões de fãs e colecionadores ao longo dos anos.
A cultura de colecionismo de videogames havia explodido. Joe Bailey, comandante de bombeiros da estação DPS Fire Station 619 no Texas, explicou: "Há pessoas em todo mundo que cresceram com Atari nos anos 60, 70 e 80. Há muitos colecionadores. Em minha coleção, eu provavelmente tenho 2.000 jogos, e há pessoas que têm de 6.000 a 8.000 sistemas de jogos". Para esses colecionadores, a possibilidade de encontrar cartuchos enterrados em 1983 era irresistível, mesmo que, como Snyder alertou, cavar no aterro fosse completamente inviável.
O artigo "Busca Para Resgatar o Titanic da Atari de 1983" comparou o enterro ao naufrágio do Titanic, uma metáfora precisa para a magnitude do desastre corporativo.
A escavação:
Em 26 de abril de 2014, uma equipe liderada pelos arqueólogos Andrew Reinhard e Richard Rothaus, em parceria com o especialista em aterros Joe Lewandowski, iniciou a escavação filmada pelo diretor Zak Penn. Após quase três dias de trabalho intenso cavando através de quase 12 metros de concreto, lixo e 41 metros cúbicos de cimento despejados em 1983, os primeiros cartuchos emergiram.
A surpresa foi gritante: E.T. representava apenas 10% dos cartuchos desenterrados. Das 802 caixas de jogos recuperadas, apenas 49 eram E.T.. A verdadeira composição do enterro era:
• Centipede: 179 cartuchos (o título mais encontrado!)
• Defender: 101 cartuchos
• Warlords: 91 cartuchos
• Star Raiders: 66 cartuchos
• E.T.: 49 cartuchos
Além disso, 53 títulos distintos do Atari 2600 e 5200 foram catalogados, incluindo sucessos como Asteroids, Missile Command e Space Invaders. O estoque incluía também consoles, acessórios e mercadorias variadas
A descoberta imediatamente desmentiu tanto a narrativa oficial da Atari de que havia enterrado apenas "estoque devolvido ou danificado" quanto a lenda urbana de que "milhões" de cartuchos exclusivamente de E.T. foram descartados. A realidade era mais prosaica: a Atari descartava inventário variado em massa industrial porque era financeiramente mais barato do que reprocessar.
E.T. não causou o crash
Nolan Bushnell, um dos fundadores da Atari, foi contundente ao documentarista Zak Penn: "Atari cometeu suicídio. Não foi E.T. Foi um efeito combinado de vários erros em tecnologia, mobilização e marketing. A causa da queda foi a Atari querer vender mais 10 milhões de consoles num mercado que já estava saturado".
Manny Gerard, executivo da Warner (proprietária da Atari à época), foi ainda mais direto: "A ideia de que E.T. causou o fim da Atari é simplesmente estúpida", declarou em entrevista ao livro Art of Atari.
Os números confirmam isso: em janeiro de 1983, analistas já advertiam que o mercado de consoles caseiros era uma bolha prestes a estourar, com prateleiras saturadas de títulos de baixíssima qualidade. A Atari havia parado de reportar certas práticas financeiras meses antes, e o prejuízo de US$ 310,5 milhões no segundo trimestre de 1983 mostrava que a falência já estava em curso. E.T. foi simplesmente vítima de momento catastrófico.
O leilão: de lixo a relíquia
Entre setembro de 2014 e agosto de 2015, 881 cartuchos foram leiloados no eBay, arrecadando US$ 108 mil no total. A cidade de Alamogordo ficou com aproximadamente US$ 65 mil; a Tularosa Basin Historical Society com US$ 16 mil; despesas operacionais consumiram o restante.
Surpreendentemente, cartuchos do E.T. alcançaram os preços mais altos, até US$ 1.500 por unidade.
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Fonte: Hardware.com.br
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