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O movimento antivacinas chegou ao poder – e já boicota a imunização mundial

Publicado em 16 de dezembro de 2025 às 12:00

3 min de leitura

Uma das notícias de ciência mais importantes do ano talvez tenha passado despercebida para você. Em agosto, o secretário da saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., abruptamente cancelou contratos de financiamento público para projetos de pesquisa envolvendo vacinas de mRNA contra doenças como gripe aviária, influenza e Covid-19. Somando com cortes anteriores, mais de US$ 1 bilhão foram limados dessas empreitadas, que são encabeçadas por grandes universidades e farmacêuticas americanas como a Pfizer e a Moderna.

Entre as várias medidas polêmicas do novo governo Trump, essa nem chamou tanto a atenção. Mas ela pode ter consequências gigantes no futuro. Afinal, menos grana para pesquisa de vacinas significa menos preparo para lutar contra eventuais novas pandemias virais.

A aposta nas vacinas de mRNA, aprovadas pela primeira vez com a Covid-19, era, e continua sendo, alta. Essa tecnologia é estudada há décadas e pode revolucionar a medicina ao utilizar RNA mensageiro, moléculas produzidas por todos os organismos, para ensinar nosso corpo a se defender de patógenos. Em caso de mutações no vírus, elas conseguem ser adaptadas e fabricadas em semanas, enquanto as técnicas tradicionais levam meses para ficarem prontas – diferença que, numa pandemia, pode salvar milhões de vidas.

Não só: a mesma tecnologia é uma das apostas promissoras para uma nova geração de tratamentos contra o câncer e doenças genéticas raras. Não à toa, ela rendeu aos cientistas Katalin Karikó e Drew Weissman o Nobel de Medicina de 2023.

Não é difícil, porém, encontrar uma descrição totalmente diferente das vacinas de mRNA nas redes sociais. Em algumas bolhas antivacinas, as injeções são o próprio anticristo: além de não serem eficazes, segundo essas narrativas, elas seriam altamente perigosas, responsáveis por causar câncer, AVC, infartos e uma infinidade de problemas de saúde.

Não é verdade, claro. Bilhões de doses já foram aplicadas, efeitos colaterais graves são raríssimos e elas seguem recomendadas por agências de saúde e sociedades médicas mundo afora. Há um sem-fim de estudos, tanto ensaios clínicos controlados como pesquisas usando dados do mundo real, que comprovam a eficácia e segurança delas. Apenas um exemplo: um artigo recente analisou 28 milhões de franceses e concluiu que as vacinas de mRNA estão associadas a uma menor mortalidade por Covid-19, sem aumento na mortalidade geral.

Até aí, não há grandes novidades. Há décadas o movimento antivacinas forma uma câmara de eco barulhenta, mas minoritária. A pandemia até deu certo gás ao grupo, mas ele permaneceu majoritariamente à margem.

Só que não mais. Os negacionistas deram um passo além e se institucionalizaram. O novo responsável por liderar a saúde pública dos EUA acumula pelo menos duas décadas de falas e atitudes anticiência.

Único membro associado ao Partido Republicano (o de Trump) vindo de uma família historicamente democrata – seu tio foi o ex-presidente John F. Kennedy –, RFK Jr., como é conhecido, está tomando as decisões de saúde do país com base em teorias da conspiração em vez de evidências concretas.

O cancelamento do financiamento para pesquisas com mRNA foi apenas um episódio da cruzada antivacinas da sua gestão. Em junho, ele demitiu todos os 17 especialistas independentes do comitê responsável por orientar o governo sobre o calendário de imunização das crianças americanas. RFK os substituiu por indicados seus, nem todos da área de saúde e alguns abertamente críticos às vacinas. Foi um movimento político-ideológico, não científico.

Em dezembro, veio o primeiro absurdo do novo comitê: contrariando um consenso de décadas, o grupo revogou a recomendação de vacinar recém-nascidos contra a hepatite B, uma doença letal que pode passar da mãe para os filhos.

Fonte: Superinteressante

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