
SEGA R360: A história da cápsula giratória de uma tonelada que desafiou a lógica dos fliperamas
Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 14:10
10 min de leituraEm 1990, a SEGA não lançou apenas mais um fliperama; ela lançou um desafio à gravidade e ao bom senso financeiro. O R360 não era um gabinete comum onde se jogava uma ficha e ficava de pé. Era uma cápsula giroscópica de uma tonelada, capaz de girar o jogador 360 graus em qualquer direção, aplicando forças G reais enquanto simulava combates aéreos.
Custando ¥18 milhões na época (hoje equivalente a mais de US$ 200.000), o R360 representa o auge da era em que a SEGA tentou transformar arcades em atrações de parques temáticos industriais.
Esta é a história de como a SEGA construiu um produto impressionante que custou uma fortuna para operar.
A cápsula que era pura adrenalina
Os pôsteres oficiais da SEGA mostram o R360 como peça central de um “large-scale amusement center”. A arte de divulgação não exagerava. A sequência de inicialização sozinha dura minutos. Ao apertar o interruptor principal na parte traseira, a máquina emite um alarme e exige que o operador pressione “enter” na torre de controle. A partir daí, o R360 executa uma rotina de autoverificação onde a cápsula gira sozinha em todas as direções, testando encoders de posição, sensores de limite e sistemas de freio.
Kevin Keinert, um dos poucos colecionadores que mantém unidades R360 funcionais nos Estados Unidos, documentou em vídeos detalhados, publicados no Youtube em 2007, o processo completo de operação. Ele explica: “O gabinete rola e monitora seus encoders para garantir que pode sentir onde está o tempo todo, que tudo relacionado ao sistema de servo está funcionando adequadamente”. Se qualquer um dos parâmetros estiver fora da margem, a máquina se recusa a operar.
Há um atalho—manter pressionados os botões “down” e “enter” simultaneamente durante a energização—que pula a sequência de auto-rotação, mas isso só é usado para manutenção, nunca com jogadores. A razão é óbvia: sem a verificação, você não sabe se o sistema de emergência vai funcionar quando alguém apertar o botão de pânico lá dentro.
E esse botão existe, dois, na verdade. Um dentro da cápsula, outro na torre externa. Quando acionado, a máquina para instantaneamente onde está, mesmo que o jogador esteja invertido, e exibe na torre: “Siga minhas instruções”. O operador precisa inspecionar visualmente a área ao redor, confirmar que ninguém está preso embaixo da estrutura giratória e só então pressionar “enter” para que o R360 retorne à posição vertical e libere o passageiro.
Mas há outro ponto ainda mais impressionante. Além da chave para operar o modo de teste manual dos motores, há uma ferramenta plástica especial para liberação de emergência do cinto de segurança. “Se a máquina ficasse desabilitada com alguém lá dentro e eles estivessem presos pelos cintos, você usa essa ferramenta—ela vai num buraco na frente do sistema de travamento e você gira para liberar manualmente o cinto de segurança de 4 pontos, de forma que você consiga tirar o cara de lá se houver perda total de energia”, relembra Kevin.
Dentro da Engenharia: dois eixos e quatro motores
A especificação técnica nos posters fala em “sistema de movimento giroscópico” com capacidade de rotação de 360 graus “para frente/trás e esquerda/direita”. Na prática, são dois anéis concêntricos de aço, cada um acionado por um motor servo AC de 1,5 kW. O anel externo controla o eixo de rolagem (roll), o interno controla o eixo de arfagem (pitch). Quando é solicitado que o caça no jogo faça um looping, ambos os motores trabalham em sincronia para girar a cápsula e o jogador junto, aplicando até 2Gs de força.
Mas fornecer energia elétrica para algo que gira infinitamente é um problema que a indústria de arcade nunca havia enfrentado. Masao Yoshimoto, engenheiro mecânico responsável pelo projeto, explicou em entrevista de 2020 ao site Famitsu: “Precisávamos fornecer energia para dois anéis que giram infinitamente, e simplesmente não existia nada assim no mercado. Procuramos por todo lado e acabamos usando componentes customizados de radares militares”.
Os anéis coletores (slip rings) que a equipe encontrou eram feitos com contatos de platina, os mesmos usados em radares navais. Custavam ¥1 milhão cada, e o R360 precisava de dois—um para cada eixo. Yoshimoto lembra que conseguiram reduzir o custo mais tarde, mas “ainda assim ficou caro”.
O monitor CRT de 20 polegadas apresentou outro pesadelo de engenharia. Yoshimoto conta que o fabricante se recusou a dar garantia: “É óbvio—ninguém imagina que você vai ficar girando um tubo de raios catódicos”. Quando a equipe perguntou ao fabricante quais partes quebrariam primeiro durante rotação contínua, a resposta foi silêncio. A solução? Yoshimoto e a equipe quebraram dezenas de monitores propositalmente em protótipos, identificando componentes fracos e reforçando-os manualmente.
Mas o problema mais bizarro foi a distorção de cor. “O tubo de raios catódicos é afetado pelo campo geomagnético da Terra, então quando você gira o monitor, a tela fica toda vermelha ou toda azul”, Yoshimoto explicou. Tecnicamente fazia sentido, um CRT usa ímãs para guiar o feixe de elétrons, mas ninguém havia previsto isso porque ninguém gira monitores.
A solução veio de um engenheiro exausto, trabalhando de madrugada. Monitores CRT têm circuito de degauss (desmagnetização) que normalmente ativa uma vez ao ligar a máquina, emitindo aquele ‘BONG’ característico. Mas o R360 girava continuamente, então o campo magnético da Terra distorcia as cores durante o jogo todo. A solução? Um engenheiro exausto sugeriu: ‘E se a gente deixar o degauss ativado o tempo todo enquanto a máquina gira?’ Yoshimoto testou. Funcionou. O R360 se tornou o único arcade a usar degauss contínuo durante operação, algo que fabricantes de CRT não recomendavam, pois o componente PTC foi projetado para ativar apenas na inicialização.
O consumo elétrico final foi tão absurdo que o R360 se tornou o primeiro arcade da história a exigir alimentação trifásica de 200V—o mesmo padrão de ar-condicionado industrial. Makoto Osaki, outro desenvolvedor presente na entrevista, riu: “Basicamente, viramos um ar-condicionado”
Em caso de perda total de energia elétrica, você afrouxa os seis parafusos, dois voltas cada um, para liberar os freios, e então empurra manualmente a estrutura inteira até reposicionar o ocupante na vertical. Kevin enfatiza: “É muito pesado, muito difícil de girar. Você tem que colocar seu peso nisso. Mas você consegue girar essa coisa sozinho, sem nenhuma energia na máquina”.
O problema é que a SEGA nunca liberou esquemas elétricos completos do sistema de controle dos servos. Quando um encoder de posição queima, quando um slip ring que transmite sinal elétrico para dentro da cápsula giratória falha, quando a placa de controle de vídeo e movimento apresenta defeito, não há manual de reparos.
G-LOC: Air Battle foi o título de lançamento do R360, mas Wing War (1994) é o exemplo perfeito de como a máquina não fazia sentido comercial. O jogo foi projetado para dois jogadores lutarem entre si, cada um em sua própria cápsula R360, conectadas por fibra óptica. Kevin possui tanto um R360 quanto uma versão sit-down de Wing War e modificou ambas para se comunicarem, normalmente, elas se recusam a funcionar juntas porque os firmwares detectam a incompatibilidade.
O processo de configuração de rede sozinho já é artigo de engenharia. No menu de teste, você define um R360 como “master” e outro como “slave”; se ambos tentam ser master, a conexão falha. Se o R360 configurado como master é desligado durante o jogo, o slave entra em “erro de rede” e trava, exigindo que o operador entre no modo de serviço, pressione os botões de reset na sequência correta e restabeleça o handshake de comunicação.
Dentro do jogo, Wing War oferece dois modos: “dog fight” (combate direto entre jogadores) e “expert” (voo livre com controle total de acelerador). No modo expert, Kevin demonstra pilotando um Harrier, usando o acelerador analógico para controlar hover—puxar para trás ativa VTOL, empurrar para frente acelera. Ele explica que cada uma das oito aeronaves disponíveis tem física de voo diferente, exigindo calibração do acelerador e do joystick antes de cada sessão.
A calibração é manual e obrigatória. Toda vez que você desconecta e reconecta a placa do jogo, ou troca o boardset, os valores de calibração do joystick e do acelerador são perdidos.
O fracasso comercial
A Sega vendiaa o R360 como parte da “Hi-Entertainment Game Series”, posicionado ao lado de outras máquinas “taikan” como After Burner II, OutRun, Space Harrier e Thunder Blade. A diferença é que todas essas usavam movimento hidráulico limitado—alguns graus de inclinação, talvez 45° de rotação. O R360 prometia rotação completa ilimitada, e essa promessa veio com custos insustentáveis.
A área de instalação mínima exigida é 4,5m × 4,5m, com cerca de segurança física a um metro de distância da estrutura giratória. Alimentação trifásica de 50A, operador dedicado na torre de controle. E o custo inicial de ¥18 milhões—algo entre $90.000 e $100.000 na época. Relatos de operadores europeus e americanos falam em cobrar US$3 a US$5 por partida para tentar recuperar o investimento, e mesmo assim era muito dificil tornar lucrativo.
O grande achado
A SEGA nunca divulgou quantos R360 foram produzidos. Estimativas variam entre 100 e 200 unidades, com um ex-funcionário da empresa afirmando que o número real é “segredo da companhia”. O que se sabe é que a maioria foi desativada até os anos 2000, quando a era de ouro dos arcades entrou em colapso. Muitas foram vendidas como sucata de metal; outras foram simplesmente abandonadas em depósitos e galpões quando as casas fecharam.
Em fevereiro de 2021, Lee Peters, membro de um grupo no Facebook dedicado a SEGA, encontrou um R360 abandonado num campo agrícola no norte do Condado de Antrim, Irlanda do Norte, próximo à costa norte de Belfast. Peters reconheceu imediatamente a máquina por causa de suas próprias memórias de jogar num R360 na cidade litorânea de Blackpool, na Inglaterra, do outro lado do Mar da Irlanda.
As fotos que ele tirou mostram a estrutura exposta ao clima por décadas, com metal enferrujado, painéis faltando e a cápsula branca manchada pela ação do tempo.
A SEGA chegou a ressuscitar o conceito
Vinte e cinco anos depois do fracasso comercial do R360 original, a SEGA decidiu tentar de novo—mas dessa vez com uma estratégia completamente diferente. Em julho de 2015, a empresa lançou o R360Z, uma versão modernizada para dois jogadores, exclusivamente nos parques temáticos Joypolis em Tóquio e Xangai. O jogo escolhido foi Transformers: Human Alliance Special, um rail shooter onde os jogadores sentam lado a lado, presos por cintos de segurança integrados aos controles, e giram 360 graus enquanto atiram em Decepticons.
A diferença crucial: o R360Z nunca foi vendido para operadores externos. A Sega aprendeu a lição de 1990. Em vez de tentar vender máquinas de uma tonelada que custavam fortunas e quebravam constantemente, a empresa manteve todas as unidades em parques próprios, onde equipes técnicas dedicadas podiam fazer manutenção preventiva e o custo operacional se diluía no ingresso do parque.
O “rei do pop” tinha um
Entre os compradores do R360, o mais famoso foi Michael Jackson. O artista era fã tão dedicado da Sega que visitava frequentemente a empresa durante viagens ao Japão, conhecendo pessoalmente a equipe de desenvolvimento, incluindo Masao Yoshimoto, engenheiro mecânico do R360. Jackson não apenas jogou na máquina; ele comprou uma e a instalou em Neverland, sua propriedade na Califórnia.
O dia em que Michael Jackson visitou a sede da SEGA
Após a morte de Jackson em 2009, o R360 de Neverland foi leiloado junto com o resto da propriedade. O destino da máquina desde então é desconhecido, nenhum colecionador ou museu confirmou posse. É possível que tenha sido comprada por colecionador privado e nunca mais exibida publicamente, ou que tenha sido desmontada e vendida como peças.
O R360 permanece como um monumento à ambição desmedida da SEGA nos anos 90.
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Fonte: Hardware.com.br
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Resumo rápido!
💬 0 - Morre David Rosen, co-fundador da SEGA e um dos precursores dos fliperamas no Japão

David Rosen, ex-aviador dos EUA que ajudou na fundação da SEGA como a conhecemos, morreu no último Natal, aos 95 anos de idade. O falecimento foi confirmado oficialmente por um porta-voz do ex-executivo, acrescentando que Rosen se despediu da vida rodeado de seus familiares.
💬 0 - Você só tem uma semana para jogar Anthem antes de o game desaparecer

Lançado em fevereiro de 2019, Anthem prometia trazer a BioWare para o campo dos jogos como serviço com monetização constante. Em um mundo alienígena repleto de roupas altamente tecnológicas, o game convidada os jogadores a desvendar mistérios e a seguir uma história contada de forma não cronológica.
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