Um terço da água tratada do Brasil é perdida. Projeto da Unesp busca solucionar o problema
Publicado em 26 de dezembro de 2025 às 18:00
5 min de leituraO Brasil perde 37,8% de sua água tratada devido a problemas na distribuição, de acordo com um levantamento do Instituto Trata Brasil publicado em 2024. O número equivale a 7,6 mil piscinas olímpicas por dia. No Amapá, estado com infraestrutura de abastecimento mais precária, a taxa é de 71,7%.
Nem todo esse prejuízo é sinônimo de canos danificados. Uma parcela da água perdida é desviada por instalações clandestinas, por exemplo, cujo consumo não é contabilizado nem cobrado. Além disso, há uma margem de erro inerente às medições dos hidrômetros (os "relógios de água") residenciais. Ainda assim, vazamentos na tubulação são a variável que mais contribui para os números alarmantes.
A dificuldade em resolver o problema é proporcional ao seu tamanho. Só o estado de São Paulo tem 120 mil km de canos subterrâneos de água e esgoto, comprimento suficiente para dar três voltas na Terra. O ideal é substituir essa tubulação labiríntica a uma taxa anual de 2%, partindo dos canos mais antigos para os mais recentes.
Na prática, trata-se de uma meta difícil: "É muito caro. Acho que nem 1% disso pode ser alcançado", diz o engenheiro Cícero Mirabô, do Departamento de Combate às Perdas da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). A abordagem mais realista para resolver o problema, então, envolve não substituir mas sim tapar os buracos nos canos. Para isso, é preciso, antes, descobrir onde estão os canos danificados em meio ao emaranhado de cabos, córregos e túneis ocultos sob as cidades.
O problema não é exclusividade do Brasil, tampouco limitado a países do Sul Global. Irlanda e Itália, por exemplo, arcam com perdas similares às nossas. O Reino Unido fica em 23%, e a França, em 20%. Apenas um país da União Europeia, a Alemanha, mantém a taxa abaixo dos 5%, um feito notável. A capital japonesa Tóquio é uma história de superação nesse quesito: terminou a 2ª Guerra com 80% de perdas de água, e cerca de metade de sua tubulação destruída; hoje, o número está em 3,9%.
Em busca de soluções high-tech para facilitar a caça aos vazamentos, a Sabesp se aliou há mais de uma década ao engenheiro mecânico Fabrício César Lobato, professor da Faculdade de Engenharia da Unesp no campus de Bauru (FEB) e um dos grandes especialistas do país na detecção de problemas em redes de água e esgoto. Ele trabalha com o problema desde o início de seu doutorado na Universidade de Southampton, na Inglaterra, em 2009. Lá foi orientado por Michael Brennan, um dos maiores especialistas do mundo na área. Brennan acabou se mudando para o Brasil, e hoje leciona na Unesp de Ilha Solteira.
A colaboração Unesp-Sabesp, financiada por editais da Fapesp, rendeu muitos frutos desde então. Fabrício, Brennan e seus colegas desenvolveram versões nacionais acessíveis de detectores chamados "correlacionadores"; criaram um método inovador para calibrar e avaliar esses aparelhos; e, agora, trabalham para dar um passo na vanguarda da área com os inéditos detectores de superfície. Estes são capazes de localizar vazamentos à distância, sem a exigência de que o equipamento entre em contato físico direto com os canos (o que ocorre com correlacionadores tradicionais).
Há um entrave, porém: esses produtos estão no estágio de protótipo, devido à falta de empresas interessadas e capazes de fabricá-los em larga escala. Essa etapa é conhecida como o "vale da morte" do empreendedorismo. Para transpô-lo, os pesquisadores precisam prospectar parceiros. Neste caso, as possibilidades incluem startups e algumas poucas empresas nacionais que já trabalham com equipamentos voltados para esse setor.
Correlacionador é equipamento eficaz, mas preço desestimula uso
Por décadas, dois equipamentos foram imprescindíveis para o trabalho de detecção de vazamentos subterrâneos: hastes de escuta e geofones mecânicos. Essas máquinas amplificam sons oriundos do subsolo, assim como estetoscópios fazem com o ruído dos pulmões. Tanto as hastes como os geofones só funcionam nas mãos de técnicos treinados, já que a função desses aparelhos se limita a tornar o sinal audível e levá-lo aos ouvidos: cabe ao usuário distinguir o som ligeiramente diferente que a água produz ao passar por um cano furado.
Os correlacionadores foram um avanço em parte porque não dependem só da perícia e experiência de seus operadores. Um correlacionador típico consiste em um par de detectores idênticos que são acoplados, por exemplo, a hidrantes ou a hidrômetros de duas casas localizadas em pontos diferentes de uma mesma rua. Esses são pontos de acesso eficazes porque estão diretamente conectados ao cano maior que distribui água a todos os imóveis da região. Caso haja um buraco na tubulação, o som produzido pelo vazamento percorrerá distâncias diferentes até cada um dos sensores. Isso permite que, com a ajuda de uma equação, se possa determinar o ponto aproximado em que a água está escapando.
O problema é que "hoje, um correlacionador bom sai em torno de R$ 300 mil, e não há fabricante nacional", explica Mirabô. "Ao contratar uma empresa terceirizada, a Sabesp informa a ela que precisa dispor de uma equipe certificada em haste, geofone e correlacionador. As terceirizadas até mostram para nós que possuem esses equipamentos, mas quase nenhuma usa. No dia a dia, o empresário não põe um equipamento desse custo para rodar em um Golzinho por aí."
O primeiro projeto submetido e aprovado por Lobato em um edital da Fapesp com a Sabesp tinha o objetivo de criar um correlacionador comercial comercialmente viável no Brasil. Deu certo, e veio com um brinde: além de desenvolverem uma versão mais barata do equipamento, Fabrício e seus colegas criaram uma bancada de simulação de vazamentos para testar a eficácia da própria invenção em comparação aos equivalentes importados, denominada "bancada virtual".
Fonte: Superinteressante
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