“Assombrou minha existência por décadas”: os relatos de quem sofre de paralisia do sono
Publicado em 18 de dezembro de 2025 às 12:00
4 min de leituraTexto Victor Bianchin | Design e colagens Carlos Eduardo Hara
"Era março de 1992, Carnaval. Eu tinha 13 anos e estava na casa da minha madrinha, dormindo numa esteira no chão da sala, junto com meu irmão mais novo e meu primo. Estava em meio a um sonho onde era levado para um palácio de cristal no fundo do mar. No sonho, foi-me dito que era o palácio de Yemanjá, a orixá rainha dos mares. Quando eu estava prestes a chegar aos portões do palácio, despertei."
"Mas não consegui abrir os olhos, nem sequer mexer um músculo do meu corpo. Tive a impressão de estar sufocando, de estar ficando sem ar. Todo o meu corpo parecia estar sob um misto de tremor e dormência, mas a sensação mais angustiante, ao lado da dificuldade para respirar, era a pressão no peito. Era como se alguém estivesse pisando com força sobre o meu tórax, me impedindo de me mexer, de respirar direito. Ao mesmo tempo, sentia um torpor me puxando, me empurrando para um sono profundo que, na minha cabeça de menino assustado, estava me levando para a morte. Logo percebi que, quanto mais eu tentava movimentar alguma parte do meu corpo, mais o misto de tremor e dormência se intensificava, mais a pressão no peito se acentuava."
"Não posso precisar por quanto tempo esse episódio durou. Alguns minutos, com certeza. Quando finalmente recuperei os movimentos do corpo, me levantei de supetão, buscando ar e tentando me livrar do sono profundo que ainda me puxava. Eu contei tudo ao meu irmão e ao meu primo, mas eles só riram. Mais tarde, os adultos também não deram muita importância."
O relato acima é do antropólogo Eduardo (nome fictício), 46 anos, e foi o primeiro caso que ele viveu de paralisia do sono. Naquela noite, provavelmente não foi o único a despertar dentro de um pesadelo: 7,6% da população mundial sofre desse mal (1). Os primeiros casos costumam aparecer entre a infância e o começo da vida adulta. A frequência de episódios pode aumentar conforme a idade avança.
Em 2018, uma revisão sistemática (estudo que analisa uma série de outros estudos) observou que a prevalência de paralisia do sono nos grupos avaliados variava radicalmente – algumas pesquisas indicavam apenas 2%, outras chegavam a 60% (2). Isso acontece porque não existe um método padrão-ouro para medir paralisia do sono: cada estudo usa critérios, definições e perguntas diferentes.
Outro problema é que a terminologia também não é precisa: paralisia do sono é um sintoma comum de narcolepsia, que é uma desordem neurológica que causa, entre outros sintomas, excesso de sonolência durante o dia. Quando o distúrbio acontece, mas o paciente não é narcoléptico, alguns cientistas preferem usar o termo paralisia do sono isolada. E ainda existe o termo paralisia do sono isolada temerosa quando os episódios causam sensação exacerbada de medo na pessoa.
Para Eduardo, o que se seguiu depois do primeiro caso foram anos de perturbação pela mazela, em parte pelo desconhecimento dos adultos ao seu redor, mas também por associar os acontecimentos a uma possível punição divina por sentir atração por pessoas do mesmo sexo. "Ali, se iniciava um ciclo que assombraria a minha existência por décadas", diz ele.
7,6% da população mundial sofre de episódios de paralisia do sono. São 620 milhões de pessoas.Getty Images/Carlos Eduardo Hara/Montagem sobre reprodução Os gatilhos
Não existe um único grande responsável pela paralisia do sono: a condição é resultado de uma série de fatores, que podem ou não estar agindo em conjunto. Um deles é a genética: os cientistas já sabem que a incidência é maior entre pessoas que têm familiares com o problema. Um estudo recente (3) com gêmeos e irmãos adultos no Reino Unido estimou que fatores genéticos correspondem a 53% do risco de episódios de paralisia do sono.
No entanto, há diversas outras possíveis causas (4): a já citada narcolepsia, hipertensão, apneia do sono, privação do sono, consumo de álcool e/ou drogas, estresse, cansaço, trauma e outros. Diversos estudos apontam que, quanto pior a qualidade do sono da pessoa, maiores as chances de um episódio de paralisia do sono.
A ansiedade com algum grande evento também pode desencadear o distúrbio. Foi o que aconteceu com Anderson (nome fictício), de 22 anos, estudante de economia. Quando tinha 14, ele se viu ansioso demais para uma prova da escola e acabou vivenciando seu primeiro episódio. A partir daí, em "momentos de muito estresse", a paralisia do sono voltou a aparecer.
Fonte: Superinteressante
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