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Saiba o que é mito e o que é verdade na suplementação com selênio e seus efeitos sobre a glândula tireoide

Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 10:00

3 min de leitura

Maria Fernanda Barca é Médica, doutora em Endocrinologia e membro do grupo de Tireoide do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP). O texto a seguir foi originalmente publicado no site The Conversation, que reúne artigos redigidos por pesquisadores. Vale a visita.

Nos últimos anos, o selênio passou a ser visto com frequência em redes sociais, nas prateleiras de suplementos e consultórios. Fala-se dele como um aliado da imunidade, da tireoide, da fertilidade e até da prevenção de doenças crônicas. Parte desse interesse tem base científica: o selênio é um micronutriente essencial e participa de processos fundamentais do organismo. Outra parte, porém, nasce de extrapolações apressadas de resultados ainda limitados, o que ajuda a entender por que o tema divide opiniões.

A discussão vem ganhando força especialmente no campo das doenças da tireoide, um conjunto de condições muito mais comuns do que se imagina. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 750 milhões de pessoas no mundo convivem com alguma doença relacionada a essa glândula endócrina. No Brasil, cálculos da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) sugerem que até 60% da população desenvolverá alguma alteração tireoidiana ao longo da vida.

Localizada na região do pescoço, a tireoide produz os hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), que regulam o metabolismo, influenciam a fertilidade e participam do funcionamento de órgãos vitais, como coração e cérebro. Entre as suas alterações mais frequentes estão o hipotireoidismo (produção insuficiente de hormônios) e o hipertireoidismo (produção excessiva).

O risco de ter níveis baixos de selênio no organismo

Nos anos 1990, pesquisadores identificaram que o selênio integra enzimas fundamentais para a ativação dos hormônios tireoidianos. A partir daí, o mineral passou a ser investigado como possível aliado no manejo de doenças da tireoide — especialmente as de origem autoimune.

Níveis baixos de selênio, de acordo com estudos observacionais, podem estar associados a maiores riscos de doenças benignas da tireoide. Além disso, pesquisas epidemiológicas internacionais relacionam a deficiência do mineral a um risco aumentado de tireoidite autoimune (quando o sistema imunológico ataca a tireoide), como a tireoidite de Hashimoto (inflamação crônica que costuma levar ao hipotireoidismo) e a doença de Graves (autoimune associada ao hipertireoidismo).

Em pacientes com quadros graves, estudos apontam que a suplementação de selênio, quando utilizada como complemento ao tratamento convencional, pode estar associada a uma remissão mais rápida dos sintomas e melhora da qualidade de vida.

É justamente nesse ponto que a discussão precisa ser conduzida com mais cuidado e rigor científico. O fato de o selênio ser um micronutriente essencial não autoriza sua prescrição indiscriminada. Parte da difusão sobre as qualidades do mineral extrapola o que os dados disponíveis permitem afirmar com segurança.

Fama exagerada e mitos

Um dos mitos mais recorrentes é de que o selênio fortalece a imunidade e previne doenças de forma ampla. Na prática, ele é necessário para o funcionamento adequado do sistema imunológico, mas não há evidência de que suplementar acima das necessidades fisiológicas traga benefícios adicionais para pessoas sem deficiência.

Outro argumento frequentemente difundido é o de que o selênio teria efeito protetor contra câncer e doenças cardiovasculares. Ensaios clínicos de grande porte não confirmaram essa hipótese de forma consistente. A literatura científica indica que a suplementação indiscriminada não reduz o risco dessas doenças e, em alguns contextos, pode estar associada a efeitos adversos.

Há, no entanto, consensos bem estabelecidos. O selênio é um micronutriente essencial, mas o organismo necessita dele em pequenas quantidades. É importante também chamar a atenção para o fato de que a margem entre a dose adequada e a dose potencialmente tóxica é estreita. Em grande parte da população, especialmente em países como o Brasil, a alimentação habitual já fornece selênio suficiente, sem necessidade de suplementação.

Fonte: Superinteressante

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