A ciência da fofoca: por que gostamos tanto de falar da vida alheia?
Publicado em 19 de dezembro de 2025 às 10:00
3 min de leituraTexto Manuela Mourão Ilustração Gustavo Magalhães
Design Juliana Krauss Edição Bruno Carbinatto e Rafael Battaglia
Suetônio (69 d.C.-122 d.C.) foi uma espécie de colunista de fofoca do Império Romano. Com extensa carreira em cargos públicos, ele ficou conhecido por escrever sobre poetas e governantes. O seu foco, porém, não eram informações triviais do biografado (o ano de nascimento, a educação que recebeu), mas sim os causos e escândalos nos quais estivesse envolvido.
A sua obra mais famosa, Os Doze Césares, reúne histórias de 12 comandantes de Roma, de Júlio César aos imperadores que o sucederam. São perfis detalhados, que descrevem as virtudes e os vícios de cada um.
É graças aos relatos de Suetônio que descobrimos, por exemplo, que Nero matou uma de suas tias dando a ela uma dose fatal de laxantes. Ou que Calígula (que manteve uma relação incestuosa com sua irmã e matou um primo porque ele tossia demais) convocou três senadores à meia-noite no palácio só para que o vissem dançar trajando um biquíni dourado.
"Os inesquecíveis relatos de sexo, escândalo e devassidão de Suetônio garantiram que sua obra desempenhasse um papel significativo na formação de nossa percepção da Roma imperial", escreveu o historiador Caillan Davenport em um artigo para o site The Conversation.
A fofoca não começou com Suetônio, é claro. É algo onipresente na espécie humana. E a ciência já mostrou que todo mundo se envolve em mesmo grau na conversa fiada (não é algo majoritariamente feminino, como séculos de estereótipos pintaram).
"Tão dizendo por aí que é mega hair."Gustavo Magalhães/Superinteressante
Pesquisas sugerem que passamos uma hora por dia fofocando – isso sem contar o tempo que ficamos em redes sociais consumindo o disse me disse da vida de políticos, atletas e celebridades (1). O antropólogo e psicólogo evolucionista Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, estima que 65% das nossas conversas são sobre outras pessoas (2).
Não faltam exemplos no cotidiano. Uma das séries mais assistidas de todos os tempos da Netflix é Bridgerton, justamente um dramalhão sobre a nobreza britânica narrado e conduzido pela fofoqueira Lady Whistledown. No TikTok, vídeos com a hashtag #redditstories acumulam dezenas de milhões de visualizações – apenas com histórias narradas de fofocas publicadas no fórum Reddit. Podcasts, perfis no Instagram e livros sobre anedotas da vida alheia garantem o salário de muita gente.
Mas existe uma dualidade em como percebemos a fofoca: apesar de ser extremamente popular, ela é, ao mesmo tempo, repreendida como uma atitude errada, imoral. Um prazer culposo, pelo qual nutrimos uma relação de amor e ódio.
O dicionário da Academia Brasileira de Letras traz descrições negativas sobre a fofoca: "Ação ou costume de fabular ou de distorcer ações alheias", um "comentário maledicente ou indiscreto feito à boca pequena".
A origem etimológica do termo, porém, não carrega esse juízo de valor. "Fofoca" provavelmente vem do termo iorubá òfófó, que seria algo como "o comentário feito sobre alguém". Dentro dos candomblés, a palavra se transformou em "afofô" e, com o tempo e a mistura da língua, virou "fofoca".
Fonte: Superinteressante
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